23 fevereiro, 2014

Os estranhos seres, a quem ouvimos mais que a familia



O ESTRANHO
 Alguns anos antes de eu nascer, o meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade.
Desde o princípio, meu pai ficou fascinado com este encantador personagem, e em seguida convidou-o para viver com a nossa família.
O estranho aceitou e desde então tem estado connosco.
Enquanto eu crescia, nunca questionei o seu lugar na minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.
Meus pais eram professores: minha mãe ensinou-me o que era bom e o que era mau e meu pai ensinou-me a obedecer.
Mas o estranho era o nosso visitante narrador. Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias.

Ele tinha respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.
Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro! Levou a minha família ao primeiro jogo de futebol.
Fazia-me rir e chorar.
O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.
O meu pai exigia padrões de educação e respeito elevados, dirigia o nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho que coabitava connosco, nunca se sentia obrigado a honrá-las.
As blasfémias  os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa…
Nem da nossa parte, nem dos nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse.
Entretanto, nosso visitante de longo prazo, usava sem problemas a sua linguagem inapropriada que às vezes queimava meus ouvidos e que fazia o meu pai sentir-se incomodado e a minha mãe ruborizar. Meu pai nunca nos deu permissão para usar álcool.
Mas o estranho animou-nos a tentá-lo e a usa-lo regularmente.
Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo, e que os charutos e os cachimbos fossem algo distinto.
Falava livremente, o estranho amigo, (talvez demasiado) sobre sexo. Os seus comentários eram às vezes evidentes, outras vezes sugestivos, mas geralmente vergonhosos.
Agora sei que os meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante a minha adolescência, pelo dito estranho.
Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso e mesmo assim, permaneceu no nosso lar.
Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho veio para a nossa família.
Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era ao principio.
Não obstante, se hoje alguém pudesse entrar na guarida dos meus pais, ainda o encontraria sentado no seu canto, esperando que alguém quisesse ouvir as suas conversas ou dedicar o seu tempo livre a fazer-lhe companhia...
O seu nome?
Nós o chamamos Televisor...
Pede-se que este artigo seja lido pelo máximo possível de pessoas pois o estranho amigo afecta cada vez mais famílias e actualmente já tem uma esposa que se chama Computador e um filho que se chama Telemóvel!
Uma boa forma de nos manter ainda mais IGNORANTES e distraídos da REALIDADE




2 comentários :

  1. "Everybody gets so much information all day long that they lose their common sense"
    Gertrude Stein

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  2. As vezes aparecem nas nossas vidas certos vírus para nos tornar imunes só temos que estar preparados para resistir.

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